Mateus 21

Há alguns dias, refletia a respeito de um famoso episódio da vida de Jesus, descrito em três evangelhos (Mateus, Lucas e João), que nos serve como parâmetro para pensarmos a situação da Igreja na cidade. Para facilitar a vida do leitor, vou transcrever as passagens direto como estão no livro de Mateus. No capítulo 21 deste evangelho, vemos os discípulos preparando um transporte para Jesus entrar na cidade de Jerusalém. Na época, era uma importante – senão a principal – cidade da província romana da Palestina. Como todo grande centro, muitas pessoas circulavam por lá. Os discípulos trazem um jumento, e Jesus começa um dos mais importantes gestos de seu ministério. Enquanto Jesus entrava pelas portas da cidade, veja o que dizem os versículos 8 e 9: “Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que os seguiam gritavam: ‘Hosana ao Filho de Davi! Bendito é o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!’”

A multidão. A Bíblia fala que a multidão gesticulava, gritava, saudando o Filho de Davi… Jesus foi recebido como rei. Um novo monarca ameaçava o império, agora. Afinal, a multidão esperava um substituto ao império de Roma, para que mandasse em suas vidas. Devia ter até gente pedindo autógrafo… Mas o que é interessante aqui, é que Jesus entrou na cidade. Seus discípulos preparam os meios necessários para que isto fosse feito. Aqui, neste relato, vejo o Jesus que vai até as demandas das multidões que gritam por um alívio ao jugo do império… Jesus era o portador de respostas aos problemas das pessoas daquela cidade. Jesus trazia o seu jugo leve e suave, para uma geração massacrada pela violência do império. Os discípulos – tanto os discípulos de ontem, como os de hoje – são aqueles que viabilizam a entrada de Jesus na cidade; são discípulos, aqueles que vão com Jesus até onde os problemas acontecem, eles antecipam a multidão, levando Jesus até elas. Este deve ser o movimento da Igreja nestes dias de extrema urbanidade: levar o Cristo ressurecto até as multidões, até as favelas, até os palácios, escolas, cadeias… Levar o Cristo até as pessoas… Na cidade.

Vamos mais adiante, versículos 10 e 11: “Quando Jesus entrou em Jerusalém, toda a cidade ficou agitada e perguntava: Quem é este? A multidão respondia: Este é Jesus, o profeta de Nazaré da Galiléia.’” Jesus era aquele que agitava, alvoroçava as cidades. Mas um detalhe é interessante aqui: a multidão não reconheceu Jesus, a não ser como mais um profeta, como tantos outros que já tinham vindo. Reconheceram o Filho de Davi, mas não o Filho de Deus. Viram o profeta, mas não viram o Senhor.

O fenômeno religioso evangélico, nestes últimos anos, tem sido caracterizado pelas multidões que aglomera. Organizamos eventos – enquanto igrejas evangélicas – para milhares de pessoas… Mas nem toda multidão reunida, em uma aparente mobilização de adoração, consegue discernir quem Jesus é. Nossas multidões podem estar vendo um “pop star”, mas não o Cristo Senhor e Salvador do Universo. Nem toda mobilização de pessoas com musicas e milhares de pessoas, revelam o Senhorio de Cristo as multidões.

Continuemos nossa empreitada. A primeira instituição urbana que Jesus entra ao atravessar os muros da cidade foi o templo. Veja o que acontece lá (versículos 12 e 13): “Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse: Está escrito: a minha casa será chamada casa de oração, mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões.” Jesus se enfurece, e derruba – numa cena no mínimo inusitada – os equipamentos dos comerciantes naquele lugar. Esta passagem já foi explorada em demasia, como metáfora de várias situações e contextos. Na teologia de perspectiva evangelical, aqui se vê Jesus sinalizando para o cumprimento da nova promessa. A antiga aliança da lei, simbolizada ali pelo templo, seria superada pela vinda de Jesus. Logo, nada mais óbvio, do que quebrar tudo o que lembre a Antiga Aliança do Sinai. Porém, esta já se mostrou uma interpretação apressada e tendenciosa do relato. Não é aqui neste cenário que a Antiga Aliança do Sinai seria superada – o próprio termo “superado’ também é complicado neste caso. Jesus, nunca quis, (e nem o fez) destruir os princípios do chamado Antigo Testamento. A ação de Jesus era abrangente, ousada, ampliava os limites dos termos antigos.

Outro aspecto, também amplamente utilizado como metáfora, neste caso pelos meus colegas de profissão que professam a fé judaico-cristã, aponta para a mercantilização do sagrado. A fé é transformada num produto a ser comercializado. Ora, uma simples leitura atenta sobre a fala irada de Jesus, já coloca em dúvida esta questão. Jesus não ataca a atividade do comércio, e sim a qualidade com o que isto é feito. O comércio realizado lá, era injusto, pois era promovido por um bando de “ladrões”, segundo os termos do próprio Jesus. O problema era o fundamento ético do exercício da atividade. E aqui vai um alerta ao leitor: não estou em hipótese alguma, diminuindo a crítica a comercialização da fé! Apenas quero apontar que esta passagem específica da vida de Jesus, não pode ser utilizada para atacar este problema. Também é bom lembrar, que a própria noção de mercantilização da fé, indústria do sagrado, e coisas desta ordem, são termos construídos nestes nossos tempos hiper-modernos. Este episódio isolado não nos auxilia muito, nesta questão.

Bem, qual seria então a problemática que Jesus apontava para naquela situação? No meu entendimento, Jesus estava sinalizando e corrigindo a função do templo. O problema estava nas prioridades da agenda daquela instituição, denominada templo. Isto fica mais claro no próximo versículo (14): “Os cegos e os mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou”. Este é o versículo central da trama, protagonizada por Jesus! Aqui ela demonstra seu senhorio como Deus encarnado. Ele aproxima para si os doentes, e os cura. O recado de Deus para hoje é incisivo: as estruturas que viabilizam o Senhorio de Cristo atraem para si os mancos, os cegos, e promovem a cura. As estruturas organizadas para centralizar o Cordeiro, alteram a qualidade de vida das pessoas. É esta, exatamente esta a função do templo: viabilizar a manifestação do Senhorio de Cristo no planeta, promovendo melhora nas condições de vida dos habitantes das cidades. O Cristo Glorificado, atrai para si os mancos, os francos, os rejeitados, os fracassados, os que se imaginam fortes mas não são, os desesperados, os pobres, os ricos, os publicanos, os pecadores… As estruturas centralizadas no Filho de Deus – o chamado Santo de Israel no antiga aliança – manifestam o poder do Filho, atraindo os negros, os idosos, as mulheres, as crianças, os jovens, os homossexuais – promovendo a libertação pelo Filho e pela Verdade.

A Igreja de Jesus Cristo é chamada a viabilizar o Senhorio do Cordeiro e trazer a qualidade de vida, do Doador da Vida aos moradores das cidades….

Que a minha vida, a vida do leitor ou leitora, que nossas igrejas, possam ser estruturas que promovam o reinar de Cristo, o Filho de Deus… Aí, as pessoas nos tocarão e serão curadas e salvas…

Marcel Lins Camargo

Marcel é sociólogo e Diretor executivo do CADI Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral.

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Categorias: Coluna Semanal

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