O que Deus ajuntou, não separe…

Atos 1:8

A igreja experimentava dos instantes finais da conferência missionária que prometera ser inesquecível. A decoração estampada na parede do templo, atrás do púlpito, apontava para a ousadia e alcance da proposta da liderança. Duas enormes bandeiras, uma de Israel, de um lado, e da Autoridade Palestina, do outro, desciam do alto até o ponto em que eram ligadas pela barra transversal de uma belíssima cruz que se erguia entre elas. A temperatura emocional chegou ao clímax no instante em que duas crianças se aproximaram do cenário, e num gesto de rara beleza, menino e menina ajoelharam-se reverentemente ao pé da cruz, ali depositando uma bandeira brasileira. O apelo do pastor não havia nem bem começado, e dezenas de pessoas vieram à frente, decididos a servir em missões.

Eventos missionários podem concentrar um enorme poder catalisador. Os congressos de Edimurgo/1910, Lausanne/1974, e tantos outros de variadas dimensões que vieram no seu rastro, tem ajudado a mobilizar, potencializar e ‘inco-moldar’ o pensamento missiológico e a prática missionária. Coincidência ou não, foi a partir do COMIBAM em 1987, em São Paulo, que passamos a experimentar um fenomenal aumento das taxas de envio de missionários transculturais, que chegou a 12% ao ano. Todavia, a despeito de eventos dessa natureza pipocarem pelo país, as taxas de envio de obreiros transculturais tem caído sensivelmente, revelando uma desconcertante equação. A conta não está batendo.

Voltando à nossa parábola, os dias e meses seguintes iriam comprovar que aquele evento missionário não havia sido um mero ‘carro alegórico’ eclesiástico, apenas para produzir deslumbramento momentâneo e pacificar a consciência dos lideres locais quanto ao compromisso com missões. O encontro se desdobrava numa série de outros eventos ‘menores’ que visavam manter o fluxo de interesse e envolvimento da comunidade com relação à sua vocação. A liderança havia criado um ambiente que se tornara tanto um espaço para avaliação dos ministérios quanto uma incubadora de novas idéias, sonhos e projetos ministeriais.

Um dos diferenciais mais expressivos da visão da igreja era o fato de que aqueles que haviam sido atraídos para o serviço missionário eram, primeiramente, encaminhados para servir em projetos na área de evangelização e ação social. A cunha introduzida entre ‘Jerusalém’ e ‘confins da terra’ havia sido retirada, o que tornava a conferência um ponto de ignição de um circuito que se retroalimentava. Ou seja, ‘missões’ forneciam boa parte da mão de obra para os ministérios locais, enquanto estes ofereciam as condições sob as quais os eventuais candidatos para o serviço missionário eram filtrados, testados e aprimorados.

Não há como negar que as oportunidades, bem como os desafios dos ministérios locais, fornecem a matéria prima básica para o desempenho ministerial em ambientes de alta pressão e stress nos quais a perseverança e o equilíbrio são mais do que adereço ministerial. Com base nessa relação, moças que sonham em servir crianças em Bangladesh são sugadas por projetos entre os pobres das favelas. Projetos de plantação de igrejas entre muçulmanos da Indonésia pode muito bem começar com o treinamento sobre a arte de construir relacionamentos, agregada com a prática do evangelismo e do discipulado pessoal, ou mais ousadamente, com o estabelecimento de uma ‘igreja em células’.

O cumprimento da Grande Comissão, ou seja, o exercício de nossa fidelidade, dependerá da capacidade de manter uma relação equilibrada entre os ministérios locais e os desafios missionários. Alguém já disse que será mais fácil promover a reconciliação entre judeus e palestinos do que fazer sentar em torno de um mesmo projeto a maioria dos pastores de comunidades locais e lideres de missões. O comentário parece ácido demais, mas gera desconforto suficiente para ser ignorado. Na verdade, o calor do envolvimento com os ministérios em nossa ‘Jerusalém’ não pode produzir uma cortina de fumaça que embace nossa visão dos mais de 6.000 povos não alcançados. Por outro lado, a ousadia, pujança e criatividade dos ministérios locais são fatores preponderantes da eficácia de nossa presença nos confins da terra. Talvez não seja vulgar aplicar a algumas interpretações e ênfases de Atos 1.8 a expressão “o que Deus ajuntou, não separe o homem – ou os teólogos, pastores, missiólogos…”

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Categorias: Coluna Semanal

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